Como Zé Pelintra explica a origem das escolas de samba cariocas


O terno de linha branco, a gravata encarnada e o chapéu panamá denunciam a elegância de Zé Pilintra. Surgido no catimbó nordestino e popularizado pela macumba carioca, Seu Zé é símbolo de luz na escuridão da madrugada, e sinônimo de sabedoria na alma das ruas.

Além de patrono dos bares e sarjetas, para o historiador e babalaô do Ifá Luiz Antônio Simas, o malandro também é uma figura que ajuda a entender a origem das escolas de samba do Rio de Janeiro. Para explicar a relação, Simas criou o conceito de “Pelintração” que brinca com a ideia de ações pelintras, a partir de pontos, aforismos, histórias exemplares, performance e a indumentária de Seu Zé Pelintra.

Segundo ele, as comunidades do samba podem ser entendidas como ranchos — como eram conhecidas as associações que realizavam cortejos de carnaval, com a presença de um rei e uma rainha ao som das marchinhas — que se vestem com o terno do Pelintra.

“As escolas se adequam à estrutura disciplinar de desfile dos ranchos, com seus enredos, comissões de frente, alegorias, alas, porta-estandarte para tocar o samba carioca, que irá codificar o samba de enredo. Usam instrumentos de bandas marciais — como a caixa de guerra e os taróis — para percutir sonoridades oriundas das macumbas cariocas”, explicou o historiador, em seu perfil no Twitter. Isso é o que Simas chama de “adequação transgressora”, uma das táticas pelintras.

Simas cita ainda o famoso ponto “Balanço da Lagoa”, que fala da viagem encantada de Seu Zé ao Rio de Janeiro, para explicar uma das maiores características da entidade. “Zé vive dentro de uma canoa que balança, e, por isso, um de seus princípios ontológicos é o do ser que vive em estado de ‘equilíbrio gingado’ para não cair dentro d’água”, escreveu.

Segundo o historiador, desde suas origens, as agremiações dependeram desse mesmo “equilíbrio gingado” para dar conta das relações com o estado, a indústria do turismo, as contravenções, etc…

Outro princípio da pelintração é levar o jogo para o seu terreiro. Para expor essa ideia, Simas cita “Rádio Patrulha”, samba de Silas de Oliveira que acabou virando ponto de macumba.

Se a rádio patrulha

Chegasse aqui agora

Seria uma grande vitória

Ninguém poderia correr

Resistência e coragem

Não lhe ofereço

Quando ela chega

Impondo respeito

Não merece o preço

“O Pelintra sabe ficar na moita. Não oferece resistência, porque não merece o preço; age como o malandro do Salgueiro/16, que, ao invés de bater de frente pra ver, chama pro samba”, explicou Simas. “A lógica do malandro não é derrotar o oponente, tarefa impossível, mas jogar com ele e assumir o protagonismo do jogo, lidando com gramáticas corporais e sonoras que o oponente é incapaz de dominar.”

É assim: se adequando para transgredir, gingando para se equilibrar e levando o jogo para o seu terreiro que as pelintrações se fazem presentes no processo de formação das escolas de samba cariocas.

De acordo com o historiador, o contexto atual (no qual as escolas vivem as consequências de aceitar o jogo na casa do adversário) pede a pelintração do processo. “Adequações que não são transgressoras, equilíbrio que não é gingado, falta de reconhecimento do inimigo — para saber exatamente onde e como jogar — representam o contrário de tudo aquilo que, pelintramente, criou a maior aventura civilizatória do Rio de Janeiro.”

*Nathan Fernandes é jornalista e escreve sobre os mistérios do Universo no instagram @nathanef.


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