Terence McKenna e a linguagem do cosmos (Parte 2/2)


A parte da ciência que explica a evolução humana tem um problema. O filósofo e etnobotânico Terence Mckenna propõe uma solução, que, segundo ele mesmo, nem é a sua ideia mais absurda (mas, com certeza, é uma das mais interessantes). Apesar de ser amplamente aceita, a teoria de Charles Darwin — que explica como os seres humanos passaram de macacos atiradores de cocô a macacos superdesenvolvidos com capacidade para criar o iPhone XS Max — não explica de onde vem a consciência.


Como o punhado de carbono que forma os seres humanos do nada acordou uma manhã e pensou: ‘“Que dia bonito para colher flores no campo e me conectar com a natureza”? Ninguém sabe.


O que se sabe é que a capacidade da linguagem deu uma forcinha aí. Como explica o escritor Tom Wolfe, no livro O Reino da Fala: “A capacidade de conquistar o planeta inteiro para nossa própria espécie é a realização menor do grande poder da fala. A realização grande foi a criação de um eu interno, um ego. A fala, e somente ela, dá ao homem o poder de fazer perguntas sobre a própria vida… e de tirar a própria vida. (...) Só a fala dá ao homem o poder de inventar religiões, com deuses para animá-las”.


Segundo o escritor, o poder da fala sozinho foi o suficiente para mudar o curso história do planeta em seis casos diferentes. E esses casos têm nome: Jesus, Maomé, João Calvino, Marx, Freud e Darwin.


Então, de onde surgiu nossa capacidade de dar significado ao mundo e de nos deprimirmos com as próprias regras que criamos? Ou mesmo de sermos imensamente gratos pelas próprias regras que criamos? De onde vem a consciência, afinal?


Terence McKenna responde: dos enteógenos. Mais precisamente, dos cogumelos, que foram incluídos na dieta dos nossos ancestrais há milhares de anos. Trata-se de uma teoria apelidada carinhosamente “The Stoned Ape” (ou “O Símio Chapado”). No livro O Alimento dos Deuses, McKenna explica que a desertificação da África fez com que os hominídeos da época passassem a explorar mais o ambiente que os cercava, até encontrarem o pequeno fungo que crescia no esterco de animais.


Basicamente, depois de testados, os cogumelos teriam trazido uma série de mudanças nos comportamentos sociais e sexuais, como maior acuidade visual e disparo de fenômenos como a glossolalia — a capacidade de falar línguas desconhecidas em transe espiritual. Essas características teriam garantido uma vantagem evolutiva sem igual para os seres humanos.


“Estes são catalisadores suficientes e dramáticos, que, inculcados num estilo cultural, penso que explicariam muita coisa sobre de onde viemos e sobre quem somos”, explica McKenna, na palestra Tempos de Mudança.


“Estamos a procura de algum tipo de fator que possa ter explodido o tamanho do cérebro humano a uma escala dez vezes mais rápido do que o decorrer normal da evolução. Por isso, teria que ser uma situação incomum. (...) Se não fosse incomum, não teria levado um bilhão e meio de anos para este planeta introduzir sua primeira espécie inteligente”, diz o etnobotânico.


Para ele, o mais irônico é que vivemos em uma sociedade que transforma qualquer discussão subjetiva, como é o caso da consciência, em algo ilegal, imoral ou sequer debatido, já que foge do racionalismo científico. “O que essas substâncias fazem são dissolver limites. A razão para isso provocar tanta ansiedade social é que todas as sociedades existem devido à manutenção de barreiras. E qualquer coisa que dissolva essas barreiras e introduza o relativo no modelo cultural é considerado uma ameaça”, completa ele, na palestra.


No Fórum “A Neurociência dos Psicodélicos”, feito na Unicamp, em setembro, o psiquiatra Luís Fernando Tófoli, uma das maiores autoridades do Brasil nos estudos com substâncias psicodélicas, comentou sobre a teoria de McKenna. “Ela é tentadora, mas não conseguimos comprová-la”, disse.


O problema então, além do preconceito social com a substância, é aquele encontrado por qualquer um que já tentou explicar como é a experiência com enteógenos para alguém que nunca viveu uma. A característica inefável, essa que torna a linguagem insuficiente para descrever, fez com que McKenna afirmasse que as únicas pessoas que poderiam entender sua teoria são aquelas dispostas a viver experiências do tipo. Enquanto isso, seguimos sem nenhuma explicação científica razoável para o surgimento dos nossos questionamentos mais profundos.


A NASA tinha acabado de fazer o seu terceiro pouso bem sucedido na Lua, em 1971, quando o filósofo e etnobotânico Terence Mckenna, seu irmão Dennis e mais quatro amigos iniciaram uma jornada pela Amazônia colombiana. Enquanto os limites da astronomia eram esgarçados com a missão Apollo 14, McKenna e sua equipe buscavam romper com outro tipo de barreira: a da mente.


Foi na cidade de La Chorrera que o filósofo teve suas primeira experiências com ayahuasca e cogumelo. "A única coisa que eu sabia era que os cogumelos seriam o melhor psicodélico que eu experimentaria e que me trariam um senso de vida que eu nunca senti antes", escreveu ele em seu último livro "Alucinações Reais", lançado em 1993. "[As experiências] Parecem ter aberto portas para lugares que eu sempre achei que estariam fechadas para mim por causa da minha insistência na análise e no realismo."


No livro, McKenna narra suas experiências telepáticas, de distorção temporal e com alienígenas. Mas é sua relação com os cogumelos que mais merece destaque. Foi depois dessa jornada que o etnobotânico lançou, em 1976, o primeiro guia de cultivo de cogumelo dos Estados Unidos. Chamada "Psilocibina: O Guia de Cultivo para Cogumelos Mágicos", a obra ajudou a trazer luz à medicina indígena, em um momento no qual as pesquisas e o consumo de substâncias psicodélicas haviam sido proibidos pelo então presidente Richard Nixon, no início de sua Guerra às Drogas.


“Nossa opinião sobre o assunto não deriva da opinião de outros, nem de nada escrito em qualquer livro. Em vez disso, se baseia na experiência de tomar 5 gramas secas de cogumelo; nesse nível um fenômeno peculiar ocorre. É o surgimento de uma relação Eu-Tu entre a pessoa que toma a psilocibina e o estado mental que ela induz. [O psiquiatra Carl] Jung chamou isso de ‘transferência’, é uma condição necessária para os primeiros homens primitivos e suas relações com deuses e demônios. O cogumelo fala, e nossas opiniões são formadas pelo que ele diz eloquentemente de si próprio na noite fresca da mente”, escreveu o filósofo no prefácio do guia.


McKenna sabia que, ao expandir a mente, os psicodélicos tinham a capacidade de dissolver barreiras e ameaçar o poder. “Todas as nossas instituições foram construídas pressupondo hierarquias de ego e dominância, o futuro se trata de desconstruir isso”, disse ele, em uma de suas aulas.


Mas antes de trazer ameaças a conceitos externos, enteógenos como os cogumelos ameaçam nossas próprias bases. Isso porque, eles são uma excelente ferramenta para acessar a chave que nos liberta do medo.


Ou como disse Mckenna: “A natureza ama a coragem. Você se compromete e a natureza vai responder a isso removendo obstáculos impossíveis. Sonhe o sonho impossível e o mundo não vai te atrapalhar, ele vai levantar. Esse é o truque. É isso o que entenderam todos esses professores e filósofos que realmente importaram, que tocaram o ouro alquímico. Essa é a dança xamânica na cachoeira. É assim que a mágica é feita, se atirando no abismo e descobrindo que ele é um colchão de penas.”


Acessar essa coragem é um exercício de persistência que poucas pessoas estão dispostas a fazer. É também um risco porque o preço que se paga para dar vida a um novo eu é a morte dos conceitos antigos que uma vez moldaram nosso eu do passado. Foi nisso que Terence McKenna acreditou até o dia 6 de abril de 2000, quando terminou sua aventura na Terra por conta de um câncer no cérebro.


*Leia aqui a parte 1

Nathan Fernandes escreve sobre os mistérios do Universo no instagram @nathanef.

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