Madre Terra e a cura através da música


Com dois anos de existência, a Madre Terra é uma das bandas mais prolíficas da cena da música de rezo. Formada por Endy Maghin, Vini Cousso, Beto Yamani e Rodolfo Mazzotta, o grupo, que realiza vivências sonoras e se apresenta em rituais de ayahuasca, comemorou o lançamento de seu primeiro CD “Sinta a Vibração”, no fim de 2018.


Os músicos foram parte importante da reportagem que escrevi para o UOL, sobre o “Novo Psicodelismo”, a qual você pode ler completa aqui.


Rodolfo foi o único que não pôde participar desta conversa para o blog do Projeto Serpente Sagrada, realizada no estúdio onde as músicas do disco foram gravadas. Ele estava no hospital acompanhando o nascimento de sua filha. Com um integrante a menos, a conversa se estendeu sobre assuntos relacionados à espiritualidade e a importância da música de rezo nos rituais e no dia a dia. “As pessoas têm que se libertar, fazer o que elas querem, causar uma revolução em suas próprias vidas”, disse Beto. “Queremos fazer uma revolução através do amor, e a música é nossa ferramenta.”


Ao fim do papo de quase duas horas, eu e os músicos fomos presenteados com uma foto da filha de Rodolfo, que acabara de nascer. Confira a conversa abaixo:


Como rolou o despertar de vocês?


Vini: A gente está sempre numa busca de estar bem. E, para isso, a gente sempre recorre a várias tecnologias do mundo, medicina, saúde, entretenimento, trabalho… Às vezes, caímos numas ciladas da vida, em lugares estranhos. Mas tem momentos em que viramos a chave. No meu caso, foi o Endy quem me chamou para consagrar, e eu fui, porque já tava começando a sacar essa energia. Tive depressão por um tempo, fui trabalhando isso antes da ayahuasca e, com a ela, foi uma virada de chave.


Endy: Sinto que todo mundo aqui passou por várias curas. E a cura nunca termina. Porque o processo espiritual é bem difícil. Se você continua parece que vai ficando mais difícil. Então a chance de largar é grande, faz você querer voltar para a vida, bar, balada, sexo, drogas, tudo do mundão. Eu acho que a grande virada de chave é que, antes, a gente fazia música de entretenimento, a gente tocava no bar com a galera falando, rindo... Agora, a gente não está entretendo, agora a gente está tocando uma medicina musical, pode até ser entretenimento, mas ela vai além.


Beto: Meu despertar foi com cogumelo. Quando eu descobri, pensei: “Caramba! Se eu não me aprofundar nesse conhecimento vai ser tipo passar a vida inteira sem ver cor”. Minha cura foi acreditar em tudo isso: ciência, física, espírito... Isso é real, não é balela, mas eu achava que era. Essa foi minha cura, abrir minha mente e ver que, de fato, isso faz sentido.


Da esq. para dir.: Endy Maghin, Rodolfo Mazzotta, Vini Cousso e Beto Yamani.


Quais são potencialidades as da Madre Terra que vocês conseguem destacar?


Endy: O Madre Terra acertou ao levar música nova e moderna para os rituais. Entramos com uma pegada de força e energia, colocamos guitarra, baixo... Eu não conhecia ninguém que fazia isso. Tanto é que, no começo, a gente ficava com receio de aparecer com baixo, guitarra e sintetizador num rito. E aí umas pessoas, tipo o Leal Carvalho, falaram que era isso mesmo. A gente pegou uma energia nossa e levou para o rito. Pode ser que algumas pessoas não gostem, mas a gente está seguro.


Antes, eu tocava em vários locais e com várias pessoas, mas não tinha essa convicção. Eu só tinha dúvidas. Eu ia tocar por dinheiro, por outros motivos. A medicina e a espiritualidade me deram um motivo para trabalhar com a música, um motivo certo, com um objetivo certo.


Antes, eu falava para fora, minhas músicas eram para fora. Hoje, eu falo para dentro. A gente tenta se curar com o nosso som, então o caminho é para dentro. Eu canto para mim mesmo, e isso reverbera mais do que se eu tivesse pondo energia para fora. Não temos essa pretensão de curar o planeta, a gente quer curar a gente mesmo. Se essa cura reverberar, beleza! Mas estamos sempre no “orai e vigiai”.


Estamos vivendo um momento atual muito conturbado tanto na política quanto na sociedade. Qual é a recomendação de vocês para enfrentar isso?


Vini: A minha recomendação interior é que não se sintam obrigados a sentir medo, que sentir medo não seja uma imposição. Que as pessoas não se sintam impostas a ter medo e a agir por medo, no sentido energético, para que o medo não sirva de estratégia para abalar as pessoas. Porque esse trabalho do amor é um trabalho de sentir, então nós estamos, sim, falando de energia, de manipulação de energia. Mobilizar o ódio é cair numa corrente. Esse é o primeiro respiro. Parece esotérico, mas as pessoas despertam com o amor, com a essência da flor, a energia.


Beto: A música de rezo tem de a ir na contra-mão dessa energia que está rolando. Não que a gente consiga se manter tranquilo o tempo todo, mas acho que a Nova Era e a música de rezo vão contra isso, né. O que a música fala é que você tem que respeitar. E o boicote é uma forma de evitar fazer certas coisas.


Vini: Ano passado, passei por um regime de frutas. Meu lixo era só casca de fruta, ou seja tudo que a gente consome, especialmente de carnes e laticínios, é comandado por grandes indústrias. E acho que a filosofia do boicote permite um momento de desligamento da matrix. Politicamente qual é o efeito? Isso em cadeia, numa proporção maior, pode provocar a queda de instituições políticas que têm influência na ordem mundial.


Beto: Quem manda mesmo são as grandes empresas, não os políticos. Acho que o boicote é uma forma de burlar o sistema, é uma filosofia punk, a arma mais forte que a gente. Se você precisa consumir alguma coisa todo dia, que seja alguma coisa que você acredita. Por isso, a Nova Era e a música de rezo estão ligadas, elas trazem a ideia de um consumo mais consciente.


Interessante, porque escolher é uma opção completamente individual. Tem a ver com o fato de você curar a si mesmo e não o outro, né...


Endy: É, a gente fala da medicina, porque foi o caminho que a gente tomou. Quando a pessoa entra na medicina, a vida vira de cabeça pra baixo. A pessoa acha que está tudo errado, mas está tudo certo. E entra nesse questionamento: a pessoa pode trabalhar em uma grande empresa que faz mal para o planeta, e ela entra em conflito. Então, o lance do boicote é isso, por isso muita gente muda de vida.


Vini: A literatura de antropologia fala daquilo que o xamã vê, mas vê entre aspas, ele vê no sentido energético. [No caminho da espiritualidade] você para de negar a energia e, consequentemente, passa a ver as coisas. Por isso, é difícil continuar com os velhos hábitos...


Beto: … Tanto que hoje na banda todo mundo é vegetariano, porque a gente caminha para isso, para o consumo consciente. A cura não é só tomar medicina, a cura é você se cuidar, mudar seus hábitos… E isso reflete na música, no seu trabalho.


Para vocês, qual é a importância da música em um ritual com as medicinas da floresta?


Endy: Muita gente atrela o estado de êxtase a uma coisa ruim. Mas a expansão da consciência é uma coisa muito antiga. Quando as pessoas estão com a consciência expandida e a música tem uma mensagem bacana, o som vai atingir a consciência daquela pessoa, vai tocar no coração dela. Tem gente que está no carro, escuta Madre Terra, ou Leal de Carvalho, ou Chandra Lacombe e vai despertar.


Mas como a gente liga a medicina com a música de rezo? Fazemos uma música forte, com uma mensagem e um endereço certo. Aí a pessoa, que está com a consciência expandida, recebe isso direto no coração. Tem todo esse estudo da mensagem, que é até psíquico, não é uma música apelativa, fala de formas diferentes sobre mensagens positivas. Porque, no mantra, a repetição traz segurança e co-cria uma realidade. Por isso, o estilo de compor a música de rezo também é estudado.


É muito difícil alguém que está de fora da espiritualidade se identificar com a música de rezo, que fica falando de força, de paz… A pessoa não vai entender em um primeiro momento, eu sinto que tem que estar em outra frequência para gostar.


Beto: Quem vê de fora pode até pensar que é fácil, que a gente só fala de amorzinho. Mas, na verdade, não, a gente tem essa noção de que mexe mesmo na vibração.


Nathan Fernandes é jornalista e escreve sobre os mistérios do Universo no instagram @nathanef.

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